OPNIÃO

Combustível do Futuro, uma reflexão para o hoje!

· 3 min de leitura
Combustível do Futuro, uma reflexão para o hoje!

Por Paulo Rangel

O desafio é ter a real noção de quanto o Brasil impacta e é impactado pelo cenário global e o quanto ainda podemos progredir com a maior adoção de combustíveis sustentáveis em nossa matriz.


O momento geopolítico atual, no qual vivenciamos em tempo real tudo pela tela de nossos celulares, trouxe à tona temas que aparentemente não recebiam tanto destaque nos últimos anos, exceto em painéis governamentais mais focados em questões ambientais do que em realidade geopolítica. Guerras, invasões, deposições e disputas comerciais agressivas parecem retomar problemas que marcaram as décadas de 70, 80 e 90, e cuja narrativa política conseguiu desviar o foco por muito tempo.


Agora, porém, esses desafios se apresentam diante de nossos olhos, causando impactos diretos no cotidiano da população e também no agronegócio, força motriz do Brasil, testando mais uma vez nossa capacidade de resolver problemas complexos.


Apesar de pouco conhecidas em profundidade, questões sobre a dependência brasileira de diesel e gasolina importados — cerca de 25% do consumo nacional, em média — evidenciam a limitação da capacidade de refino do petróleo produzido no país. Ao mesmo tempo, o Brasil possui pontos fortes históricos. Há mais de 40 anos o país desenvolve soluções para problemas energéticos baseadas em alternativas sustentáveis aos derivados do petróleo.


Infelizmente, pouco se valorizam os personagens que abriram esse caminho justamente durante uma crise global semelhante à vivenciada atualmente. Nomes como o professor Bautista Vidal, criador do Programa Nacional do Álcool (Proálcool) nas décadas de 70 e 80, e o professor Expedito de Sá Parente, autor da primeira patente mundial de biodiesel e bioquerosene, ainda permanecem desconhecidos da maioria dos brasileiros.


Se hoje o país possui algum grau de conforto diante da atual crise mundial, muito disso se deve às ideias e iniciativas desses pioneiros.


O ponto central desta reflexão é compreender o quanto poderíamos estar mais avançados e o quanto ainda podemos evoluir. Também é importante entender que a resposta não está necessariamente em soluções imediatistas, como a importação massiva de carros elétricos. Além de ampliar a dependência comercial externa, essa alternativa possui aplicação limitada aos grandes centros urbanos, sendo pouco eficiente para grande parte da população brasileira que vive fora dessas regiões e necessita percorrer longas distâncias.


Atualmente, a política nacional de biocombustíveis prevê a mistura de 30% de etanol na gasolina (E30) e de 15% de biodiesel no diesel (B15). Embora esses percentuais sejam fundamentais para a estabilidade energética brasileira, ainda estão abaixo do potencial já alcançável.


Muitos ainda se lembram dos veículos movidos 100% a etanol, posteriormente substituídos pelos modelos flex, que priorizaram a versatilidade em detrimento da eficiência energética. Surge então o questionamento: o quanto mais avançados estaríamos se o desenvolvimento de motores exclusivamente a álcool não tivesse perdido espaço ao longo do tempo?


A mesma lógica se aplica ao biodiesel. Enquanto ainda há discussões intensas sobre elevar a mistura em apenas 1% ao diesel convencional, iniciativas privadas já validam motores operando integralmente com biodiesel, tanto no transporte quanto em máquinas agrícolas. Essa adoção poderia ampliar significativamente a independência energética do país e reduzir a emissão de poluentes.


Diante desse cenário, proponho um olhar otimista e confiante. O Brasil possui um agronegócio pujante, reconhecido mundialmente tanto pelos índices de preservação quanto pela diversidade de matérias-primas para produção de combustíveis sustentáveis, que vão do milho à cana-de-açúcar, da soja à macaúba.


Além disso, o país não depende da abertura de novas áreas para expandir sua produção e conta com conhecimento técnico-científico 100% nacional à disposição da sociedade. Do etanol ao SAF, do biodiesel ao biobunker para navegação, honrar o legado desses brasileiros ilustres e continuar avançando é um compromisso estratégico para o futuro.


Quando a população compreende essa história e o impacto de suas escolhas, decisões simples passam a ter grande relevância. Desde o momento de abastecer um veículo até a escolha de um novo meio de transporte, cada atitude pode contribuir para a construção de um cenário energético mais sustentável.


Com pequenas ações, cada cidadão pode — e deve — participar ativamente da redução da dependência de combustíveis fósseis, recursos não renováveis e altamente poluentes, cuja disputa continua gerando consequências negativas em diferentes partes do mundo.


O Brasil reúne condições e soluções para protagonizar uma verdadeira virada de página na história energética global. Para isso, sociedade civil, governo e iniciativa privada precisam atuar de forma alinhada.


Assim, além de sermos reconhecidos como o país do futebol, poderemos consolidar também a imagem de uma nação referência em biocombustíveis, setor que já possui papel estratégico e que tende a se tornar ainda mais fundamental nos períodos de crise e também nos momentos de prosperidade.


Paulo Rangel é engenheiro, especialista em Economia, Finanças e Gestão de Projetos, com carreira executiva dedicada ao mercado de combustíveis renováveis e energia.

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