EFEITO DOMINÓ

Alerta no campo: proposta do governo ignora parte crítica da dívida rural e acende sinal de risco na cadeia do agro

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Alerta no campo: proposta do governo ignora parte crítica da dívida rural e acende sinal de risco na cadeia do agro

JB News

Por Jota de Sá

Dívida rural chega ao centro da crise e expõe risco de efeito dominó no agro brasileiro


A proposta do governo federal para renegociar até R$ 81,7 bilhões em dívidas rurais reacendeu o debate sobre o tamanho real da crise financeira no campo. A medida, apresentada pelo Ministério da Fazenda ao Senado, prevê alcançar mais de 100 mil operações, sendo R$ 37,46 bilhões em contratos adimplentes ou prorrogados e R$ 44,23 bilhões em operações inadimplentes.  


O problema, segundo representantes do setor, é que o pacote pode atacar apenas uma parte da dívida rural. O próprio crédito rural ativo no Sistema Financeiro Nacional já vinha em forte expansão: em fevereiro de 2025, o endividamento dos beneficiários do crédito rural somava R$ 752 bilhões, segundo boletim do Banco Central.  


A pressão aumentou em 2025 e 2026. O Plano Safra 2025/2026 prevê R$ 516,2 bilhões para a agricultura empresarial, além de R$ 89 bilhões para a agricultura familiar, consolidando um dos maiores volumes de crédito já destinados ao campo.   Até abril, o crédito rural empresarial já havia alcançado R$ 404 bilhões contratados, alta de 10% em relação ao mesmo período da safra anterior.  


Gráfico sugerido para a matéria: comparar três barras: R$ 81,7 bilhões da proposta de renegociação; R$ 404 bilhões já contratados no Plano Safra 2025/2026; e R$ 752 bilhões de endividamento rural registrado pelo Banco Central em fevereiro de 2025.


Enquanto o governo tenta construir uma saída institucional, entidades do setor apontam que a crise não está limitada aos bancos. O produtor rural também se financia com cooperativas, revendas, fornecedores de insumos, tradings e cerealistas. São esses agentes que, na prática, sustentam parte da compra, armazenagem, antecipação de crédito, comercialização e escoamento da safra.


Para Jerônimo Goergen, presidente da ACEBRA, o risco é o governo tratar apenas “metade do problema”. A preocupação é que uma renegociação focada apenas no sistema bancário alivie a pressão sobre as instituições financeiras, mas empurre a crise para dentro das empresas que operam na ponta da cadeia. A ACEBRA representa empresas cerealistas, segmento que atua diretamente na compra, recebimento, armazenagem e comercialização de grãos.  


O sinal de alerta também aparece nas recuperações judiciais. Levantamento da Serasa Experian mostra que o agronegócio encerrou 2025 com 1.990 pedidos de recuperação judicial, o maior número da série histórica e uma alta de 56,4% em relação a 2024.   Produtores rurais pessoa física somaram 853 pedidos, enquanto produtores pessoa jurídica chegaram a 753 solicitações no ano.  


Outro gráfico sugerido: evolução dos pedidos de recuperação judicial no agro, destacando 2024 com 1.272 pedidos e 2025 com 1.990 pedidos, mostrando a alta de 56,4%.


O avanço da inadimplência ajuda a explicar a reação do setor. A Sociedade Rural Brasileira pediu ao Ministério da Agricultura a suspensão por 90 dias dos vencimentos de dívidas de custeio e investimento, citando o aumento do endividamento e o crescimento das recuperações judiciais no agro.   Já a Farsul alerta para o risco de “efeito bola de neve” no crédito rural, especialmente quando renegociações são feitas em ambiente de juros elevados.  


Do lado do governo, a proposta busca criar uma alternativa para produtores endividados por meio de um texto em discussão na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado. A estratégia envolve usar o relatório sobre securitização de dívidas rurais como caminho para viabilizar a renegociação no Congresso.  


O impasse está justamente na abrangência da solução. Para o governo, a proposta representa um volume expressivo e pode dar fôlego a mais de 100 mil operações. Para parte do setor produtivo, no entanto, o desenho ainda é insuficiente porque não alcança com a mesma força as dívidas privadas que sustentam o funcionamento diário do agro.


No campo, a inadimplência raramente fica isolada. Quando o produtor atrasa, a revenda deixa de receber, a cerealista perde capacidade de financiar, a armazenagem fica pressionada, o crédito privado encarece e a comercialização da safra pode ser comprometida. É esse efeito em cadeia que preocupa entidades ligadas ao agronegócio.


A crise também tem componente climático. Estados como o Rio Grande do Sul acumulam perdas provocadas por estiagens sucessivas e enchentes, o que reduziu a capacidade de pagamento de produtores e pressionou ainda mais a carteira rural. Nesse cenário, a renegociação deixa de ser apenas uma pauta financeira e passa a ser uma tentativa de evitar ruptura em uma cadeia que movimenta produção, crédito, logística e emprego.


A pergunta central agora é se o país vai construir uma saída ampla, capaz de envolver bancos, cooperativas, fornecedores, cerealistas e tradings, ou se ficará restrito a uma solução parcial. Para o setor, tratar apenas a dívida bancária pode aliviar um lado da crise, mas deixar outro ainda mais exposto. E, no agro, quando a conta muda de lugar, ela costuma voltar maior na safra seguinte.