JB News
Por Nayara Cristina
PATRIMÔNIO CULTURAL
Há 45 anos, um gesto de fé entre pescadores deu origem a uma tradição que mantém viva a alma ribeirinha de Bonsucesso
Às margens do Rio Cuiabá, onde a pesca artesanal ajudou a construir a identidade de Bonsucesso, em Várzea Grande, uma tradição iniciada por um simples gesto de solidariedade continua emocionando gerações e reafirmando a força da cultura popular mato-grossense. Em sua 45ª edição, a Festa de São Pedro e dos Pescadores transforma novamente a comunidade em um grande encontro de fé, gastronomia, música regional e preservação das tradições ribeirinhas, reunindo milhares de pessoas em torno de uma história que começou de forma modesta e hoje se tornou um dos maiores patrimônios culturais do Vale do Rio Cuiabá.
Muito antes de reunir cerca de 15 mil visitantes e distribuir aproximadamente cinco toneladas de peixe, a celebração nasceu da devoção dos moradores ao padroeiro dos pescadores. Ainda na década de 1960, famílias tradicionais da comunidade realizavam terços e encontros religiosos em homenagem a São Pedro. Mas foi em 29 de junho de 1979 que a festa ganhou o formato que atravessaria gerações. Naquele dia, Dona Augusta Maria Gomes, conhecida como Dona Guti, foi ao porto de Bonsucesso comprar peixes para preparar um almoço dedicado ao santo. Sensibilizado pela homenagem, o pescador Meinaldo Leite da Rosa decidiu doar toda a pescaria do dia. Outros pescadores seguiram o mesmo exemplo. O almoço comunitário reuniu moradores, fortaleceu os laços da comunidade e marcou o nascimento oficial da Festa de São Pedro e dos Pescadores, hoje uma das mais tradicionais celebrações culturais e religiosas de Mato Grosso.
Quarenta e cinco anos depois, a essência permanece exatamente a mesma. A comunidade continua sendo a grande protagonista da festa. Muito antes da abertura oficial, dezenas de moradores já estavam mobilizados nos bastidores. Durante praticamente uma semana, cerca de 60 voluntários, entre pescadores, familiares e moradores, trabalharam diariamente na limpeza, corte, armazenamento e preparo de aproximadamente cinco toneladas de peixe que serão distribuídas gratuitamente ao público durante a programação dos dias 28 e 29 de junho.
O trabalho começa nas primeiras horas da manhã e exige organização, experiência e união. Homens e mulheres dividem as tarefas preservando um ritual que vai muito além da culinária. Cada peixe limpo representa a continuidade de uma tradição transmitida entre pais, filhos e netos, fazendo do mutirão um dos momentos mais simbólicos da festa. É nesse ambiente de cooperação que a cultura ribeirinha se mantém viva e continua sendo passada às novas gerações.
A realização da 45ª Festa de São Pedro integra o projeto Celebrações do Vale do Rio Cuiabá, iniciativa voltada à valorização do patrimônio cultural imaterial das comunidades ribeirinhas. O projeto é desenvolvido com apoio do Governo de Mato Grosso, por meio da Secretaria de Estado de Cultura, Esporte e Lazer (Secel), recursos de emenda parlamentar do deputado estadual Wilson Santos e parceria do Instituto INCA – Inclusão, Cidadania e Ação, responsável pela fase preparatória do evento.
Segundo a coordenadora da festa, Gislene Kelly de Magalhães, a tradicional Dona Gika, os preparativos começaram muito antes do mês de junho. O lançamento oficial da edição deste ano ocorreu em março. Em seguida vieram as tradicionais visitas da bandeira de São Pedro às casas da comunidade, realizadas nos dias 6 e 7 de junho, fortalecendo um costume que simboliza bênçãos e renovação da fé entre as famílias ribeirinhas.
Na sequência, entre os dias 16 e 26 de junho, foi realizada a novena em homenagem ao padroeiro, encerrada com uma procissão luminosa que percorreu as ruas de Bonsucesso até o local da festa, reunindo moradores em um dos momentos mais emocionantes da programação religiosa.
A abertura oficial da festa acontece no sábado, 28 de junho, com missa, levantamento do mastro de São Pedro, abertura da feira gastronômica e da feira de artesanato, além de apresentações culturais que resgatam manifestações tradicionais do Vale do Rio Cuiabá.
Já no domingo, 29 de junho, Dia de São Pedro, a programação começa às 8 horas, com um culto ecumênico reunindo representantes da Igreja Católica e da Igreja Batista, reforçando a união da comunidade em torno da celebração. Durante o restante do dia, o público poderá acompanhar apresentações de Siriri, Cururu, corais e do Grupo Cultural Atalaia, além do aguardado almoço comunitário, quando serão distribuídas gratuitamente aproximadamente cinco toneladas de peixe preparadas pelos próprios moradores.
A programação cultural prossegue durante os dois dias com uma feira gastronômica organizada exclusivamente por mulheres da comunidade, responsáveis pela venda de pratos típicos, doces regionais, lanches, sucos e outras iguarias da culinária mato-grossense. Artesãs de Limpo Grande também participarão com exposição de trabalhos manuais que valorizam a tradição e fortalecem a economia criativa da região.
A música regional também terá espaço de destaque. O palco receberá apresentações das bandas Novo Som, Real Som, Mega Som, Escort Som, Sensação, Elos, Os Amigos, Tuquinha Banda Show, Os Dourados e Lambadão dos Federais, mantendo viva uma das características mais marcantes das festas populares do interior de Mato Grosso.
Entre os personagens que simbolizam a história da celebração está Meinaldo Leite da Rosa, hoje com 75 anos. Além de ter participado da criação da festa em 1979, ele foi o primeiro presidente da Associação dos Pescadores de Bonsucesso e permanece como o único integrante vivo do grupo fundador. Sua presença representa a memória de uma tradição construída pela própria comunidade.
Outro nome reverenciado pelos moradores é Joaquim Leite da Rosa, de 96 anos, considerado um verdadeiro guardião da culinária da festa. Há décadas ele continua responsável pelo tradicional tempero utilizado no preparo dos peixes servidos durante o almoço comunitário. Sua participação tornou-se símbolo da preservação dos saberes populares e da valorização dos mais antigos pescadores da comunidade.
Ao longo de 45 edições, famílias como Rosa, Magalhães e Silva mantiveram viva uma tradição que ultrapassou o aspecto religioso para se consolidar como referência da cultura ribeirinha mato-grossense. O evento movimenta a economia local, fortalece o turismo, gera renda para pequenos empreendedores, valoriza o artesanato regional e mantém vivas manifestações culturais que fazem parte da identidade do povo cuiabano e várzea-grandense.
Mais do que uma festa, a celebração representa a resistência de uma comunidade que encontrou nas águas do Rio Cuiabá sua forma de viver, produzir, celebrar e transmitir conhecimento entre gerações. Em tempos de rápidas transformações sociais, a Festa de São Pedro reafirma que preservar a cultura popular é também preservar a memória de um povo.
É justamente por essa capacidade de unir fé, história, gastronomia, música, solidariedade e identidade cultural que a Festa de São Pedro e dos Pescadores permanece como uma das mais importantes expressões do patrimônio imaterial do Vale do Rio Cuiabá, mantendo viva, há 45 anos, uma tradição que nasceu da generosidade de pescadores e continua sendo escrita pelas mãos da própria comunidade de Bonsucesso.
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