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Por Jota de Sá
O lançamento do Plano Safra 2026/2027 reacendeu o debate sobre o futuro do financiamento da produção agropecuária brasileira. Representantes do setor produtivo avaliam que o novo pacote de crédito sinaliza um afastamento gradual do poder público como principal financiador da atividade rural, transferindo cada vez mais a responsabilidade para o sistema financeiro privado e para mecanismos alternativos de captação de recursos.
Na avaliação do presidente da Associação das Empresas Cerealistas do Brasil (Acebra), Jerônimo Goergen, a estrutura apresentada pelo governo federal evidencia uma redução da participação direta do Estado na oferta de crédito ao produtor rural, especialmente nas linhas destinadas ao custeio das lavouras e à comercialização da produção.
Os números divulgados no Plano Safra reforçam essa percepção. O volume destinado ao custeio e à comercialização — considerado essencial para garantir o plantio, aquisição de insumos, pagamento de despesas operacionais e manutenção das atividades agrícolas — sofreu redução de aproximadamente 7,2%, passando de R$ 414,7 bilhões para R$ 384,9 bilhões.
Em contrapartida, os recursos anunciados para investimentos cresceram cerca de 38%, saltando de R$ 101,5 bilhões para R$ 140,2 bilhões. No entanto, segundo representantes do setor, esse aumento não representa necessariamente mais dinheiro disponível ao produtor rural, já que parte expressiva desse montante corresponde à incorporação de cerca de R$ 38,5 bilhões provenientes de fundos financeiros que não integram as linhas tradicionais do crédito rural e possuem regras específicas de acesso.
Outro ponto destacado pela Acebra é a redução dos recursos destinados à equalização de juros, mecanismo utilizado pelo governo para diminuir o custo dos financiamentos contratados pelos produtores. Os valores destinados a essa finalidade caíram de R$ 113,8 bilhões para R$ 97 bilhões, uma retração de aproximadamente 14,7%, o que pode dificultar o acesso às linhas subsidiadas e aumentar o custo efetivo do crédito em diversas modalidades.
A infraestrutura de armazenagem também permanece entre as principais preocupações do setor. O Programa para Construção e Ampliação de Armazéns registrou redução de aproximadamente 24,4% nos recursos disponíveis, justamente em um momento em que o Brasil enfrenta um déficit histórico de capacidade para estocar grãos. Especialistas apontam que a insuficiência de silos e armazéns obriga muitos produtores a vender parte da safra logo após a colheita, quando os preços normalmente estão mais baixos, reduzindo a rentabilidade da atividade.
O cenário também preocupa fabricantes, concessionárias e produtores em relação ao Programa Moderfrota, destinado à renovação da frota de máquinas e equipamentos agrícolas. O programa sofreu uma redução superior a 61%, o que pode comprometer investimentos em modernização, mecanização e ganho de produtividade nas propriedades rurais.
Segundo a Acebra, outro entrave permanece sem solução: empresas cerealistas continuam sem acesso às linhas específicas voltadas para armazenagem, situação considerada um gargalo para toda a cadeia produtiva, especialmente diante do crescimento constante da produção nacional de grãos.
O seguro rural também aparece entre as preocupações do segmento. O Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural teve redução expressiva, passando de pouco mais de R$ 1 bilhão para cerca de R$ 473 milhões. Para representantes do agronegócio, a diminuição ocorre justamente em um período marcado pelo aumento dos eventos climáticos extremos, como secas prolongadas, excesso de chuvas e geadas, fatores que ampliam o risco da atividade agrícola.
Apesar das críticas, a Acebra reconhece como positiva a decisão do governo de promover ajustes que reduziram parte das taxas de juros em algumas linhas de financiamento. Entretanto, a entidade considera que essa medida, isoladamente, não resolve os desafios estruturais enfrentados pelo setor, sobretudo diante do elevado nível de endividamento acumulado por produtores nos últimos anos.
Na avaliação de Jerônimo Goergen, o Plano Safra 2026/2027 mantém uma tendência observada nos últimos ciclos agrícolas: a redução gradual da presença do Estado como agente financiador do agronegócio brasileiro. Para a entidade, caso esse movimento continue, o setor deverá ampliar sua dependência de instrumentos privados de financiamento, como títulos do agronegócio, fundos de investimento e operações estruturadas no mercado de capitais, cenário que pode dificultar o acesso ao crédito principalmente para pequenos e médios produtores.