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Por Nayara Cristina
Depois de mais de uma década marcada por promessas, obras inacabadas, escândalos e bilhões investidos sem retorno para a população, o Governo de Mato Grosso decidiu dar destino final ao que restou do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) de Cuiabá e Várzea Grande. O Estado abriu leilão para vender trilhos, estruturas metálicas, equipamentos ferroviários, materiais elétricos e diversos itens que seriam utilizados no modal criado para a Copa do Mundo de 2014, mas que jamais entrou em funcionamento.
A decisão representa praticamente o enterro definitivo de um dos projetos mais polêmicos da história recente de Mato Grosso. O VLT foi lançado ainda em 2012 com a promessa de revolucionar o transporte coletivo da baixada cuiabana, ligando o Aeroporto Marechal Rondon ao Centro Político Administrativo e também a região do Coxipó. O sistema teria mais de 22 quilômetros de extensão e 32 estações, mas acabou paralisado em 2015 em meio a denúncias de corrupção, suspeitas de superfaturamento e disputas judiciais.
Agora, após 12 anos de indefinição, o governo resolveu transformar em dinheiro parte dos equipamentos abandonados em depósitos públicos. O leilão deve arrecadar cerca de R$ 21 milhões com a venda dos materiais restantes da antiga obra. Entre os itens colocados à venda estão trilhos ferroviários, aparelhos de mudança de via, vigas de concreto, postes semafóricos, transformadores, cabos elétricos, estruturas metálicas, nobreaks, equipamentos eletrônicos e até sucatas deterioradas pelo tempo.
Os lotes mais caros incluem aproximadamente 275 vigas pré-moldadas utilizadas em elevados e viadutos, avaliadas em mais de R$ 13 milhões. Outro conjunto de equipamentos ferroviários e dispositivos eletrônicos ligados à operação do VLT ultrapassa R$ 1 milhão em avaliação inicial. Parte dos materiais está armazenada há anos em barracões próximos ao Aeroporto Marechal Rondon, em Várzea Grande, sofrendo desgaste por abandono e exposição climática.
O leilão ocorre em um momento em que o governo tenta acelerar as obras do novo modal escolhido para substituir o VLT: o BRT. A troca do sistema ferroviário pelo transporte rápido por ônibus foi oficializada após estudos técnicos apontarem inviabilidade financeira para conclusão do VLT. Desde então, o Estado desmontou estruturas, retirou trilhos e iniciou as intervenções para implantação das pistas exclusivas do novo corredor de transporte.
Enquanto o passado do VLT vai sendo desmontado e vendido, o governador Otaviano Pivetta tenta acelerar o discurso de entrega do novo sistema de mobilidade urbana da Grande Cuiabá. Na última semana, Pivetta anunciou que o primeiro trecho do BRT deverá ser entregue até o final de junho deste ano. Segundo ele, os dois primeiros trechos em operação irão ligar o Aeroporto Internacional Marechal Rondon, em Várzea Grande, até a região do Hospital de Câncer de Mato Grosso, em Cuiabá.
O governador também revelou detalhes do modelo de veículo que será utilizado no sistema. Segundo Pivetta, o novo transporte será uma espécie de “cruzamento entre bonde e ônibus elétrico”, apostando em um sistema moderno e sustentável ambientalmente. O Estado já iniciou a aquisição dos primeiros veículos elétricos que irão operar no corredor exclusivo.
Além disso, o governo informou que as estações do BRT já foram licitadas e receberam ordens de serviço para início das obras. Pivetta ainda anunciou a criação de uma força-tarefa composta por fiscais e técnicos estaduais para acompanhar diariamente os trabalhos das empreiteiras e evitar novos atrasos em uma obra que já se tornou símbolo de desgaste político e descrença da população.
O contraste entre o leilão do antigo VLT e a promessa de entrega do novo BRT resume um dos maiores dramas da mobilidade urbana de Mato Grosso. O modal que nasceu como símbolo de modernidade para a Copa de 2014 termina sua trajetória sendo vendido em lotes de sucata, enquanto o governo tenta convencer a população de que o novo sistema finalmente sairá do papel.
Para muitos moradores da região metropolitana, o sentimento é de frustração. Depois de anos convivendo com obras paradas, avenidas destruídas, transtornos no trânsito e bilhões gastos sem resultado, a população agora acompanha o desmanche definitivo do VLT e aguarda para saber se o BRT realmente conseguirá cumprir a promessa que o antigo projeto jamais conseguiu entregar: funcionar.