JB News
por Emerson Teixeira
O delegado Bruno França Ferreira foi exonerado do cargo de titular da delegacia da Polícia Civil de Mato Grosso no município de Sorriso, localizado a cerca de 397 quilômetros de Cuiabá. O ato foi publicado em edição extra do Diário Oficial do Estado nesta quinta-feira, mas a publicação não apresenta justificativa formal para a destituição do delegado do comando da unidade policial.
A exoneração ocorre após meses de forte repercussão envolvendo a delegacia que estava sob responsabilidade de Bruno França, que se tornou alvo de atenção pública depois da denúncia de estupro cometida por um investigador contra uma detenta dentro da própria unidade policial.
O caso envolve o policial civil Manoel Batista da Silva, acusado de abusar sexualmente de uma mulher que estava custodiada na delegacia. Segundo o depoimento da vítima no processo, ela teria sido retirada da cela diversas vezes durante o período em que esteve presa e levada para uma sala reservada da delegacia, onde teria sido violentada sexualmente pelo investigador.
A mulher relatou ainda que foi ameaçada durante os abusos e que o policial teria afirmado que sua filha poderia ser morta caso ela denunciasse o crime. Após deixar a unidade policial, a vítima procurou as autoridades e formalizou a denúncia, o que deu início à investigação conduzida pela própria Polícia Civil.
Exames periciais realizados pela Perícia Oficial e Identificação Técnica de Mato Grosso (Politec) encontraram material genético compatível com o do investigador no corpo da vítima, reforçando as acusações apresentadas no inquérito. Diante das provas reunidas, a Justiça determinou mandados de busca e apreensão e decretou a prisão preventiva de Manoel Batista da Silva.
O investigador foi posteriormente indiciado por estupro e abuso de autoridade. O Ministério Público do Estado de Mato Grosso apresentou denúncia criminal e a Justiça aceitou a acusação, tornando o policial réu no processo. A defesa tentou reverter a prisão por meio de habeas corpus, mas o pedido foi rejeitado, e ele permanece preso enquanto o caso segue em tramitação.
A crise institucional na delegacia de Sorriso se agravou ainda mais após o surgimento de áudios atribuídos a policiais da unidade em conversas de aplicativos de mensagens. O material teria sido extraído de um celular institucional furtado e revela diálogos com conteúdo considerado grave, incluindo comentários de teor sexual envolvendo detentas e referências a possíveis irregularidades em procedimentos policiais.
Entre os conteúdos mencionados nas conversas estariam suspeitas de flagrantes forjados, simulação de confrontos e utilização irregular de aplicativos de espionagem. O vazamento provocou forte reação institucional e levou a Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Mato Grosso a cobrar providências das autoridades. Diante da repercussão, a Corregedoria da Polícia Civil enviou uma equipe a Sorriso para apurar a conduta dos servidores citados nos diálogos.
O caso também gerou tensão dentro da própria corporação. A delegada Janira Laranjeira, conhecida por atuar em casos de violência contra a mulher, afirmou ter recebido mensagens de intimidação após se manifestar publicamente nas redes sociais em defesa da investigação e da responsabilização do policial preso.
A exoneração de Bruno França ocorre ainda sob a sombra de outra polêmica envolvendo o delegado. Antes de assumir a delegacia em Sorriso, ele foi alvo de investigação após ser acusado de invadir uma residência no condomínio Florais dos Lagos, em Cuiabá. Na ocasião, imagens de câmeras de segurança registraram o momento em que o delegado entra na casa acompanhado de policiais após arrombar a porta do imóvel.
Dentro da residência estavam uma mulher, seu marido e uma criança pequena. Segundo relatos apresentados à época, o delegado teria apontado arma e ameaçado a moradora durante a abordagem, enquanto a criança chorava no local. O episódio levou à abertura de procedimento na corregedoria da Polícia Civil para apurar possível abuso de autoridade.
Após o episódio no condomínio, Bruno França acabou sendo transferido para o interior do estado, passando posteriormente a comandar a delegacia de Sorriso, unidade que voltou ao centro das atenções após o escândalo envolvendo o estupro denunciado por uma detenta.
Até o momento, nem a Polícia Civil nem o Governo de Mato Grosso informaram oficialmente se a exoneração do delegado tem relação direta com os episódios registrados na delegacia ou com as denúncias anteriores envolvendo sua atuação. A saída do cargo ocorre em meio à forte repercussão pública do caso e às investigações administrativas que continuam em andamento sobre os fatos ocorridos na unidade policial.