O governo de Mato Grosso afirma ter aplicado R$ 51,3 milhões, via Secretaria de Desenvolvimento Econômico (Sedec), para tirar a ZPE do papel — dinheiro usado para infraestrutura, urbanização industrial, instalação de módulos, área aduaneira, sistemas de controle e adequações exigidas pelo governo federal para reconhecimento alfandegário.
“UM FATO HISTÓRICO”, DIZ MAURO MENDES
No discurso, Mauro Mendes chamou a entrega de “um sonho transformado em realidade” depois de uma espera que ultrapassa 30 anos. Ele lembrou que a ZPE de Cáceres foi criada por decreto presidencial em 1990, mas ficou parada durante décadas por entraves jurídicos, disputas societárias da administradora, falhas de infraestrutura e falta de prioridade orçamentária. Agora, segundo ele, a inauguração marca a abertura de um novo eixo de industrialização de Mato Grosso, rompendo a concentração de investimentos apenas na rota da BR-163, tradicional corredor da soja, milho e carne do Estado.
“Estamos presenciando um fato histórico para Mato Grosso”, disse o governador. “Tínhamos o eixo do desenvolvimento centralizado pela BR-163 e a ZPE vai ser um símbolo de uma nova etapa de crescimento e industrialização, não só para Cáceres, mas para toda a região Oeste”, afirmou. Para Mauro Mendes, essa inauguração é também um gesto de correção de rota: “Ao longo de 30 anos, muitos atores fizeram aquilo que puderam fazer. Mas coube ao Estado fazer o investimento necessário para tornar o sonho realidade”.
O governador também citou que a ZPE, a partir de agora, passa a oferecer condições reais para que a indústria exportadora se instale na região de fronteira, agregue valor à matéria-prima produzida em Mato Grosso (soja, milho, proteína animal, minérios, madeira industrializada, derivados químicos etc.) e exporte produto acabado, e não apenas commodity. Isso, segundo ele, significa emprego direto dentro do Oeste mato-grossense e circulação de renda em Cáceres.
ALCKMIN FALA EM NOVA VITRINE DE EXPORTAÇÃO
Geraldo Alckmin enfatizou o papel da ZPE não só para Mato Grosso, mas para a balança comercial brasileira. Ele disse que a ZPE de Cáceres “abre um novo leque de investidores”, porque oferece tratamento tributário e cambial diferenciado para empresas que exportam. Na prática, dentro de uma ZPE a empresa tem suspensão de tributos como IPI, PIS/Cofins, Imposto de Importação e AFRMM (Adicional ao Frete para Renovação da Marinha Mercante) sobre insumos e matérias-primas compradas para produzir. Se o produto final é exportado, essa suspensão se converte em isenção ou alíquota zero. Isso reduz custo, aumenta competitividade e dá previsibilidade para quem fabrica mirando fora do país.
Alckmin reforçou que “o comércio exterior é essencial para o Brasil poder crescer” e destacou o fato de que Cáceres já tem empresa instalada dentro da ZPE e comitiva internacional sondando novos aportes, incluindo grupo empresarial chinês presente hoje no evento. Para o presidente em exercício, essa combinação — área alfandegada pronta, regime tributário atrativo e uma região que já é forte em produção de alimentos e commodities — cria um ambiente maduro para atrair indústria que transforma matéria-prima em produto de maior valor agregado.
A aposta é que a ZPE de Cáceres se torne a âncora de um corredor industrial-exportador no Oeste de Mato Grosso, aproveitando a proximidade logística com a fronteira boliviana e a Hidrovia Paraguai-Paraná, rota estratégica para escoamento de cargas rumo ao Atlântico e ao mercado internacional. Essa visão foi reforçada por lideranças locais durante o ato de inauguração, que apresentaram a ZPE como um divisor de águas para a economia regional, capaz de gerar empregos diretos e indiretos em toda a cadeia: transporte, hotelaria, alimentação, serviços técnicos, manutenção industrial e qualificação profissional.
A prefeita de Cáceres, Eliene Liberato, tratou a inauguração como reparação histórica à cidade. Ela disse que o complexo simboliza “anos de luta, perseverança e esperança de homens e mulheres que nunca desistiram de acreditar no potencial desta terra”. Segundo a administração municipal, a chegada efetiva de indústrias dentro da ZPE vai pressionar por mais cursos técnicos, mais formação profissional e mais serviços especializados, impulsionando não apenas grandes grupos econômicos, mas também o pequeno comércio local — restaurante, lavanderia, borracharia, hotel, oficina.
QUASE QUATRO DÉCADAS DE ESPERA
A entrega de hoje encerra uma novela iniciada ainda no final dos anos 1980. O embrião da ZPE de Cáceres começou a ser articulado por lideranças políticas locais em 1987 e 1988, ainda na redemocratização, quando Cáceres deixava de ser considerada “área de segurança nacional”. A proposta ganhou forma e reconhecimento federal em 1990, quando a ZPE foi criada oficialmente por decreto presidencial. Mas, a partir daí, o projeto travou por 30 anos: judicialização, disputa societária da área, pendências contábeis, falta de infraestrutura mínima e, principalmente, ausência de aporte financeiro contínuo.
Em 2019, já na gestão Mauro Mendes, o governo estadual iniciou um processo de saneamento jurídico e administrativo da ZPE e assumiu a responsabilidade direta de concluir e equipar o complexo. Esse esforço foi fechado em 2023, permitindo que a Receita Federal alfandegasse a área em março de 2024 e liberasse o início das operações. A inauguração desta sexta-feira, 24 de outubro de 2025, é o ponto final dessa travessia.
No palanque, Mauro Mendes cravou: “A ZPE é um marco para a industrialização de Mato Grosso”. Alckmin respondeu sinalizando apoio federal e chamou Cáceres de “nova porta de saída da produção brasileira para o mundo”. Para a classe política, essa não é apenas a inauguração de um distrito industrial: é a reescrita do mapa econômico de Mato Grosso, com Cáceres passando de promessa a plataforma oficial de exportação.